A relação comercial entre Brasil e China necessita de uma redefinição, migrando de um modelo focado na exportação de commodities para uma parceria estratégica em áreas como biocombustíveis e tecnologia. Essa é a análise de Larissa Wachholz, senior fellow do CEBRI (Centro Brasileiro de Relações Internacionais) e especialista em China, que destaca tanto os riscos quanto as oportunidades geradas pela busca chinesa por maior autossuficiência alimentar e desenvolvimento rural.
A China tem intensificado seu foco no desenvolvimento rural, visando não apenas a autossuficiência em alimentos, mas também a melhoria da qualidade de vida em suas zonas rurais. Embora essa política possa representar um desafio para as exportações agrícolas brasileiras, ela também abre portas para que o Brasil diversifique sua pauta, deixando de ser apenas um fornecedor de matérias-primas.
Oportunidades em Biocombustíveis
Wachholz relatou uma observação recente durante sua visita à China, há duas semanas, onde empresas já discutem a importação de etanol brasileiro para a produção de Combustível Sustentável de Aviação (SAF) na ilha de Hainan, no sul do país. Essa iniciativa é impulsionada por incentivos tributários locais. "Pode ser uma ideia aceitável, mas é melhor que a gente produza esse SAF aqui", ponderou a especialista, sugerindo que o Brasil deveria buscar a agregação de valor internamente.
Nesse contexto, a colaboração entre Brasil e China poderia avançar na criação de critérios para o cálculo de emissões, alinhando-se ao interesse chinês por produtos com menor intensidade de carbono. "Deveríamos ver, nos chineses, parceiros na resolução dos nossos problemas", enfatizou Wachholz.
Desafios na Exportação de Soja
A urgência dessa transformação na parceria bilateral é acentuada pela busca da China por menor dependência externa, especialmente em relação à soja. Dados do Ministério da Agricultura da China, citados por Wachholz, projetam uma queda nas importações chinesas da oleaginosa. A expectativa é que o volume caia de 105 milhões de toneladas atuais para 95 milhões de toneladas até 2030, e para 82 milhões de toneladas até 2035.
Diante desse cenário, a especialista ressaltou a necessidade de o Brasil adotar uma postura flexível e realista. "A gente precisa ter certa flexibilidade para compreender a política chinesa, mas não pode fingir demência em relação ao que está acontecendo", concluiu. A adaptação e a busca por novas frentes de cooperação são cruciais para o futuro da relação Brasil-China.