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ASSISTA: Café transforma propriedades, mas falta de sucessores preocupa produtores de Cacoal

Fredson Dellarmelino afirma que o robusta amazônico elevou a produtividade e melhorou a renda no campo, enquanto a baixa permanência dos jovens ameaça a continuidade das propriedades familiares.

Redação Cacoal Notícias / RuralCast
Foto: Cacoal Notícias / RuralCast

O crescimento da produção de café, a adoção de novas tecnologias e a evolução do robusta amazônico modificaram a realidade de diversas famílias rurais de Cacoal. Entretanto, a pouca participação dos jovens e a ausência de sucessores podem comprometer a continuidade das propriedades nas próximas décadas.


O assunto foi abordado pelo produtor rural e presidente da ASTRA, Fredson Dellarmelino, durante entrevista ao RuralCast, programa do Grupo Amazun apresentado por Adalto Costa e exibido pelo canal Olá Rondônia.


Fredson mora na zona rural de Cacoal desde 1980, quando seu pai adquiriu a propriedade onde a família permanece. Ele começou a ajudar na produção ainda criança e acompanhou as mudanças da agricultura ao longo das últimas décadas.


A região onde vive possui forte ligação com a cafeicultura. Dos 76 membros ativos da ASTRA, 66 são produtores de café. Segundo o presidente, apenas cerca de 10% começaram a investir recentemente na atividade, enquanto a maioria cultiva o grão há vários anos.


Café melhora a qualidade de vida


Para Fredson, o café foi decisivo para aumentar a renda e melhorar a qualidade de vida das famílias da região. A transformação pode ser observada na estrutura das propriedades, nos veículos utilizados e na capacidade de investimento dos agricultores.


“O café foi responsável por essa mudança praticamente em sua totalidade na nossa região. Hoje, durante uma reunião da associação, o pátio fica cheio de carros e motos novos. Essa melhoria veio por meio do café”, afirmou.


Ele recordou que, em outros períodos, muitos moradores se deslocavam de bicicleta, a pé ou em caminhões para participar de atividades comunitárias. A realidade atual é diferente, especialmente entre produtores que investiram em lavouras mais produtivas.


Segundo Fredson, a evolução do robusta amazônico permitiu produzir mais em áreas menores. O resultado trouxe maior estabilidade financeira e estimulou novos investimentos em irrigação, máquinas, secadores e melhoria das propriedades.


“Foi uma evolução muito boa. A produção aumentou bastante em pequenas áreas e isso incentivou o agricultor a plantar mais”, explicou.


O aumento da renda, no entanto, também levou parte dos produtores a concentrar os esforços exclusivamente no café. Em períodos anteriores, era comum plantar mandioca, banana, melancia e outras culturas entre as linhas da lavoura. Com a intensificação do cultivo, muitas áreas passaram a ser destinadas apenas ao cafeeiro.


Produção chega a 185 sacas por hectare


Ao apresentar sua experiência pessoal, Fredson informou que alcançou média de 125 sacas de café por hectare em uma safra. Em determinadas áreas da propriedade, a produtividade chegou a 185 sacas por hectare.


“Este ano consegui produzir uma média de 125 sacas por hectare. Houve área que chegou a 185 sacas. É uma diferença muito grande em relação ao período em que se produziam 30 ou 40 sacas”, relatou.


Para ele, o produtor precisa observar a relação entre custo, trabalho e produtividade. Uma planta que produz mais pode exigir um investimento um pouco maior em adubação, mas utiliza a mesma estrutura de irrigação e demanda trabalho semelhante ao de uma planta com menor rendimento.


Fredson defende que uma propriedade não precisa ter uma área extensa para gerar renda. O mais importante é aplicar técnica, utilizar materiais produtivos, organizar os custos e alcançar bons resultados por hectare.


“Não é preciso ter uma propriedade grande. É necessário produzir bem. Se o agricultor consegue uma produtividade elevada em um hectare e administra corretamente as despesas, isso pode gerar uma renda importante para a família”, explicou.


Na avaliação dele, quem pretende começar precisa buscar orientação antes de implantar a lavoura. Irrigação, espaçamento, escolha das mudas, correção do solo, adubação e planejamento financeiro devem fazer parte do projeto desde o início.


“O primeiro passo é ter consciência do que vai produzir e começar o trabalho bem feito. É preciso plantar com técnica, usar irrigação e procurar conhecimento”, orientou.


O produtor alertou que os custos atuais reduzem a margem para erros. Uma lavoura implantada sem planejamento pode provocar prejuízos por vários anos.


“No patamar em que estamos hoje, não podemos errar muito. Se cometer muitos erros, o produtor pode descer ladeira abaixo. É preciso utilizar a tecnologia e fazer tudo corretamente”, declarou.


Jovens ainda deixam o campo


Apesar do momento positivo da cafeicultura, Fredson considera lenta a participação de jovens nas propriedades. Muitos saem para estudar, constituem família na cidade e não retornam para dar continuidade às atividades dos pais.


“Os jovens estão pensando mais em estudar e sair do campo. Não sou contra quem quer estudar, mas a agricultura pode proporcionar uma vida melhor do que muitas oportunidades encontradas na cidade”, avaliou.


Ele defendeu que a formação acadêmica pode ser utilizada para modernizar a propriedade. Jovens formados em áreas como administração, veterinária, agronomia, tecnologia e gestão poderiam retornar levando novos conhecimentos para a produção familiar.


“Eles poderiam voltar com o conhecimento adquirido na cidade, ajudar os pais a produzir mais, melhorar a qualidade e também viver muito bem na propriedade”, sugeriu.


Para demonstrar o potencial econômico da atividade, Fredson apresentou o exemplo de uma lavoura com 5 mil pés de café. Quando bem conduzida, a área pode gerar rendimento superior ao de muitos empregos urbanos e ainda oferecer autonomia ao produtor.


“Na cidade, a pessoa disputa uma vaga com quem já mora lá. No campo, ela pode ter uma boa fonte de renda e ser dona do próprio trabalho”, observou.


“Estamos criando herdeiros, não sucessores”


A falta de continuidade dentro das famílias foi resumida por Fredson em uma frase apresentada durante a entrevista: “Estamos criando herdeiros, e não sucessores.”


O herdeiro recebe a propriedade, mas pode optar pela venda. O sucessor, por sua vez, participa do trabalho, adquire conhecimento e prepara-se para manter ou ampliar a produção construída pelas gerações anteriores.


Fredson explicou que deu continuidade à propriedade comprada por seu pai em 1980, mas reconheceu que enfrenta a mesma incerteza observada em outras famílias. Sua filha está concluindo a formação em Medicina Veterinária, porém não demonstra interesse em assumir a atividade agrícola.


“Tenho apenas uma filha e ela não quer dar continuidade à agricultura. Então estou criando uma herdeira, não uma sucessora. Isso está acontecendo em várias propriedades da nossa região”, afirmou.


A situação também é percebida entre os associados da ASTRA. Conforme Fredson, muitos filhos de produtores estão estudando, formando-se, casando e estabelecendo residência longe das propriedades.


Sem sucessores, a tendência é que parte dessas áreas seja vendida ou incorporada por produtores maiores. Isso pode reduzir a presença da agricultura familiar e ampliar a concentração da produção.


Futuro depende de produtividade e gestão


Fredson acredita que, nos próximos cinco ou dez anos, os produtores precisarão aumentar a renda e a produtividade para acompanhar o crescimento das despesas familiares e dos custos de produção.


“Se a despesa dobrar, a renda também precisa crescer. Há dez anos, o custo de uma família era um; hoje, praticamente dobrou. Se eu não tivesse aumentado minha produção, poderia estar no vermelho ou ter deixado o campo”, analisou.


O dirigente defendeu que os agricultores acompanhem as mudanças tecnológicas e utilizem irrigação, materiais genéticos produtivos e equipamentos adequados. A modernização, segundo ele, reduz o esforço em diversas etapas e torna o trabalho rural mais atrativo.


A disponibilidade de mercado também foi apontada como um fator positivo. Para o produtor, atualmente há compradores para diferentes volumes de café, o que facilita a comercialização da produção.


“Hoje não podemos reclamar de mercado e de opções. O produtor pode ter uma saca ou mil sacas que encontra comprador. Temos irrigação, tecnologia, possibilidade de trabalhar e mercado para vender”, afirmou.


Água pode se tornar o principal gargalo


Embora considere favorável o atual cenário da cafeicultura, Fredson demonstrou preocupação com a disponibilidade de água. As mudanças climáticas e os períodos prolongados de estiagem podem limitar a irrigação e comprometer a produção.


“O maior gargalo poderá ser a água. Temos problemas de seca e de clima. Tenho muito receio de que a falta de água se torne uma dificuldade para as lavouras”, alertou.


Sobre a mão de obra, ele afirmou não enfrentar dificuldades em sua propriedade. Durante a colheita, chegou a trabalhar com 18 pessoas e teria disponibilidade para ampliar a equipe. Fredson atribuiu essa situação ao relacionamento construído com os trabalhadores e ao pagamento de valores considerados justos.


“Não trato ninguém apenas como funcionário. Trato como amigo, fico junto na lavoura e procuro pagar o justo. Sei como o trabalho é sofrido e jamais quero usufruir injustamente do suor de outra pessoa”, declarou.


Ao finalizar a entrevista, Fredson afirmou que se considera realizado com a trajetória construída na agricultura. Com trabalho e planejamento, conseguiu adquirir máquinas, secador, caminhão e trator para a propriedade.


“Com muito esforço e dedicação, chegamos ao patamar que desejávamos. Todo mundo precisa ter um objetivo e trabalhar para chegar até ele. Não adianta esperar que as coisas caiam do céu”, concluiu.


A entrevista completa com Fredson Dellarmelino está disponível no canal Olá Rondônia, no YouTube.


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