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ASSISTA: Do campo à agroindústria: Claudia Moura transforma mandioca em renda no Sítio Canaã

Expositora apresentou na 2ª AGROTEC produtos derivados da macaxeira e defendeu assistência técnica, regularização sanitária e união entre agricultores familiares

Redação Olá Rondônia / RuralCast
Foto: Olá Rondônia / RuralCast

Uma história construída no campo

A tradição familiar, o conhecimento transmitido entre gerações e a busca por novas oportunidades fizeram da mandioca uma importante fonte de trabalho e renda para Claudia Luciana Moura, expositora da 2ª AGROTEC, realizada em Porto Velho.

Durante entrevista ao RuralCast, podcast do Grupo Amazun, transmitido pelo canal Olá Rondônia, Claudia conversou com o apresentador Inácio Rocha sobre sua trajetória na agricultura, a criação de sua agroindústria e a diversidade de produtos desenvolvidos no Sítio Canaã, localizado na região da Estrada dos Morrinhos, com acesso pela BR-364, no km 50.

Natural de Mato Grosso, Claudia explicou que nasceu em uma família profundamente ligada à vida rural. O contato com a produção começou ainda na infância, acompanhando o trabalho realizado pelos pais, avós e bisavós.

“Eu sou neta, bisneta e filha de agricultor. A minha lida sempre foi no campo, uma tradição de família”, afirmou.

Quando a família chegou a Rondônia, percebeu que a mandioca apresentava boa adaptação às condições locais. Durante muitos anos, entretanto, a produção era destinada principalmente ao consumo familiar, à vizinhança, à fabricação de farinha e à alimentação dos animais.

“A gente plantava para a vizinhança, para fazer farinha e para o trato dos animais. Até os resíduos nós utilizávamos na compostagem e na adubação”, relatou.

Mudança para Porto Velho ampliou a comercialização

Antes de se estabelecer em Porto Velho, Claudia mantinha sua produção no município de Monte Negro. Mesmo com a distância, ela transportava os produtos para a capital, onde encontrava melhores condições de comercialização.

A necessidade de ficar mais próxima dos compradores foi determinante para a mudança. Inicialmente, a produtora vendia a macaxeira descascada, mas a procura por novos mercados e a necessidade de atender às exigências legais fizeram com que ela avançasse para a formalização da agroindústria.

“O comércio é um grande desafio para nós. Eu trazia a produção para Porto Velho, fui descascando, vendendo e buscando crescer”, contou.

O processo de regularização, segundo Claudia, não foi simples. A necessidade de obter o licenciamento sanitário exigiu adaptações na estrutura, aquisição de equipamentos e busca por orientações.

Pioneirismo no licenciamento sanitário

Durante o RuralCast, Claudia afirmou ter sido a primeira agricultora do município de Porto Velho a obter o licenciamento de sua pequena agroindústria por meio de um programa direcionado à agricultura familiar.

“Eu fui a primeira agricultora no município de Porto Velho a licenciar”, destacou.

A produtora adequou uma estrutura já existente para atender às normas sanitárias. O espaço recebeu mesas de inox, organização do fluxo de produção, separação entre entrada e saída e outras melhorias necessárias.

Segundo ela, muitos agricultores deixam de buscar a regularização porque acreditam que o processo exige investimentos muito altos. Entretanto, programas direcionados à agricultura familiar podem facilitar esse caminho.

“Eu tinha uma pequena estrutura e me adequei às normas. Muitos agricultores não buscam o licenciamento porque têm medo de não conseguir ou de precisar investir muito”, explicou.

A formalização permite que os produtos sejam comercializados com maior segurança, amplia o acesso a mercados e cria condições para o produtor participar de programas públicos, fornecer para instituições e negociar com empresas.

Integração entre os órgãos facilita acesso à informação

Claudia avaliou positivamente a presença de instituições públicas e entidades de apoio na 2ª AGROTEC. Para ela, a união entre município, Estado e organizações como Emater, Sebrae e Senar facilita o acesso dos agricultores a informações essenciais.

“Não são apenas os agricultores que precisam ser capacitados, mas também as pessoas que atendem o agricultor, tanto na esfera municipal quanto estadual”, observou.

A expositora destacou que a segunda edição da feira apresentou uma integração maior entre os órgãos responsáveis por orientar os produtores.

“Na AGROTEC, tivemos o Estado juntamente com o município orientando os agricultores. Isso é maravilhoso e faz parte da evolução”, declarou.

Essa atuação integrada pode ajudar o produtor a compreender as exigências sanitárias, acessar programas de apoio, melhorar a produção, desenvolver embalagens, criar rótulos e alcançar novos mercados.

Mandioca dá origem a diferentes produtos

No Sítio Canaã, a mandioca deixou de ser comercializada apenas como produto in natura e passou a ser utilizada como matéria-prima para uma grande variedade de alimentos.

A produção inclui farinha, pão de queijo, croquetes, coxinhas, pastas, salgados e outras receitas desenvolvidas a partir da macaxeira. Parte do conhecimento veio da família, enquanto novas técnicas foram incorporadas por meio de cursos e capacitações.

“Eu fui capacitada pelo Senar e fiz um curso de culinária à base de mandioca. Mas eu já fazia em casa, aprendendo com minha mãe e com minha avó”, explicou.

Claudia contou que gosta de experimentar novas receitas e explorar as possibilidades oferecidas pela matéria-prima.

“É uma vastidão de derivados. Eu vou inventando e fazendo experiências”, afirmou.

Entre os produtos comercializados, o croquete aparece como um dos principais destaques.

“O campeão de vendas é o croquete”, revelou.

A produtora também desenvolve uma pasta de macaxeira que pode substituir a maionese, além de salgados preparados para atender consumidores e estabelecimentos comerciais.

Alternativa sem glúten

Uma das vantagens destacadas por Claudia é a possibilidade de substituir algumas massas preparadas com trigo por produtos à base de mandioca. Essa característica pode atender consumidores que buscam alimentos sem glúten ou novas opções para a alimentação.

“A mandioca substitui outras massas. É um produto sem glúten”, ressaltou.

O uso da macaxeira em pães, massas e salgados permite agregar valor à produção rural. Em vez de vender apenas a raiz, o agricultor pode transformar o produto, ampliar a margem de comercialização e alcançar novos públicos.

Essa industrialização também contribui para aumentar a durabilidade dos alimentos e reduzir perdas na propriedade.

AGROTEC abre oportunidades para vendas

A participação na 2ª AGROTEC trouxe visibilidade e oportunidades comerciais para o empreendimento. Claudia afirmou que as vendas foram positivas e que contou com ajuda para atender à procura pelos produtos.

“Eu vendi muito bem e estou vendendo muito bem”, comemorou.

Além das vendas realizadas dentro da feira, a participação possibilitou novos contatos para comercialização no atacado. Entretanto, ampliar a produção de derivados ainda depende da conclusão do processo de legalização de uma cozinha industrial maior.

“A minha cozinha industrial ainda não está licenciada porque preciso de outra estrutura, mas está a caminho para que eu possa legalizar também os derivados”, explicou.

O objetivo é aumentar a capacidade produtiva sem abandonar o cuidado artesanal e a ligação com a agricultura familiar.

Demanda maior que a capacidade de produção

Claudia relatou que, após conquistar o licenciamento, recebeu contatos de compradores interessados em grandes quantidades. No entanto, sua agroindústria ainda é pequena e não possui capacidade para atender sozinha a pedidos de grande escala.

Essa situação revela um dos principais desafios da agricultura familiar: existe mercado, mas é necessário organizar os produtores, padronizar a produção e regularizar outras unidades para atender coletivamente às demandas.

“O que falta para nós, agricultores, é industrializar os produtos. Quando consegui o licenciamento, recebi várias ligações, mas os compradores queriam contratos muito maiores do que a minha capacidade”, relatou.

Para Claudia, o caminho passa pelo fortalecimento das associações e pela construção de agroindústrias coletivas.

“É preciso uma organização entre os agricultores. Se outros produtores estivessem licenciados, conseguiríamos nos juntar para atender essas demandas”, afirmou.

Comunidade reúne produtores e farinheiras

Além de produtora e expositora, Claudia atua na organização dos agricultores. Ela informou que preside uma associação rural da comunidade Santa Rita dos Morrinhos e participa da coordenação da Câmara Setorial de Tubérculos.

A comunidade reúne aproximadamente 205 produtores e conta com 16 farinheiras. Apesar da capacidade produtiva, a falta de licenciamento das unidades ainda limita o acesso a mercados maiores.

“Na nossa comunidade somos 205 produtores e temos 16 farinheiras. O gargalo é que nenhuma delas é licenciada”, explicou.

A regularização dessas estruturas poderia ampliar a produção, facilitar o atendimento de contratos e criar novas oportunidades de renda para as famílias.

Câmara Setorial ajuda a construir propostas

A Câmara Setorial de Tubérculos foi apresentada como um espaço de diálogo e construção de políticas públicas. Por meio dela, os representantes dos produtores podem apresentar propostas, discutir dificuldades e buscar soluções junto ao município e ao Estado.

“A Câmara Setorial é um local de propostas. Por meio dela, conseguimos fazer com que Estado e município se juntassem para discutir essas questões”, declarou Claudia.

A participação dos agricultores nesses ambientes é importante para que as políticas públicas sejam elaboradas a partir dos problemas reais enfrentados no campo.

Assistência técnica melhora a produção

Outro ponto destacado foi a importância da orientação técnica para o uso correto do solo, dos insumos e das tecnologias agrícolas. Claudia explicou que, anteriormente, muitos produtores realizavam o manejo com base apenas na experiência prática, sem acompanhamento profissional.

“O resultado maior veio da orientação técnica que a gente não tinha”, ressaltou.

A aplicação de calcário foi citada como exemplo. Em solos ácidos, o uso inadequado pode gerar desperdício ou não produzir o resultado esperado.

“O agricultor pode colocar calcário a mais ou a menos. A orientação é essencial porque precisa ser na quantidade certa, e é o técnico que pode indicar isso”, explicou.

Embora a mandioca seja uma cultura resistente e consiga produzir em condições menos favoráveis, a correção adequada do solo pode aumentar significativamente a produtividade.

“Se corrigir o solo, ela pode produzir o dobro ou até mais”, afirmou.

Aproveitamento integral da mandioca

A entrevista também mostrou que praticamente todas as partes da planta podem ser aproveitadas. Além da raiz destinada à alimentação e à fabricação de farinha, as folhas e o caule podem ser utilizados na alimentação animal, no plantio de novas áreas e na comercialização de manivas.

“Nada da macaxeira ou da mandioca se perde”, enfatizou Claudia.

A produtora relatou que participou de uma feira internacional da mandiocultura em Paranavaí, no Paraná, onde conheceu novas técnicas. Uma das experiências implantadas em sua propriedade é a colheita em dois ciclos.

Nesse sistema, parte da planta é colhida após cinco ou seis meses, enquanto o caule e as folhas podem ser aproveitados para ração. A planta permanece no solo para completar um novo período de desenvolvimento.

Claudia também pretende atuar na produção de manivas com qualidade sanitária, segmento que pode fornecer material de plantio mais seguro aos agricultores.

União entre agricultura familiar e pecuária

As folhas e os caules da mandioca podem ser utilizados na alimentação animal, especialmente após o processamento adequado. Para Claudia, esse aproveitamento cria uma oportunidade de parceria entre agricultores familiares e pecuaristas.

Segundo ela, os produtores de mandioca podem fornecer matéria-prima para a produção de ração, enquanto os criadores de animais ganham uma alternativa alimentar para seus rebanhos.

“Falta a junção dos grandes produtores de animais com os agricultores familiares para fazer essa parceria”, defendeu.

A integração pode reduzir desperdícios, agregar valor aos resíduos da produção e criar uma nova fonte de renda nas propriedades.

Tradição, inovação e geração de renda

A participação de Claudia Luciana Moura no RuralCast demonstrou como uma cultura tradicional pode ser transformada por meio da capacitação, da regularização e da agroindustrialização.

Da farinha ao pão de queijo, dos croquetes às coxinhas, a macaxeira cultivada no Sítio Canaã representa trabalho, identidade rural e oportunidade econômica.

A trajetória também evidencia os desafios ainda enfrentados pelos agricultores familiares, como licenciamento, assistência técnica, acesso à estrutura, organização coletiva e capacidade para atender grandes compradores.

Assista à entrevista completa no podcast RuralCast, pelo canal Olá Rondônia no YouTube:




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