Sistema representa o setor produtivo de Rondônia
A representação dos produtores rurais, os desafios logísticos do agronegócio e as oportunidades para industrializar a produção de Rondônia foram os principais assuntos de uma edição especial do RuralCast, gravada durante a 2ª AGROTEC, em Porto Velho.
O convidado foi Hélio Dias, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Rondônia e do Conselho Administrativo do Senar. Técnico em agropecuária e pecuarista, ele possui uma trajetória de 44 anos no estado.
Durante a entrevista conduzida pelo apresentador Adalto Costa, Hélio explicou que o Sistema Faperon/Senar atua na defesa dos interesses dos produtores, na formação profissional e na prestação de assistência técnica.
“Temos o dever legal e a missão de representar os produtores rurais, as agroindústrias e todo o segmento rural do estado de Rondônia.”
A Federação congrega 37 sindicatos de produtores rurais distribuídos pelos municípios rondonienses. Em âmbito nacional, o setor conta com a representação da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, a CNA.
Acompanhamento das decisões nacionais
Hélio Dias explicou que a CNA acompanha os projetos apresentados no Congresso Nacional e mantém diálogo com o Senado, a Frente Parlamentar da Agropecuária, o Ministério da Agricultura e o Ministério do Meio Ambiente.
O monitoramento é necessário porque as propostas legislativas podem gerar impactos diretos sobre diferentes cadeias do agronegócio.
“Muitos projetos vêm para ajudar, mas outros podem trazer transtornos aos vários segmentos do agro brasileiro.”
As equipes técnicas avaliam os textos, identificam os possíveis efeitos para os produtores e contribuem com informações durante a tramitação das matérias.
Esse trabalho permite que as federações estaduais participem dos debates nacionais e apresentem as demandas específicas de suas regiões.
Setor produtivo mantém organização
Segundo Hélio, o agronegócio de Rondônia possui diferentes organizações representativas. Produtores de soja, milho, café, cacau, mel e pecuária, entre outras atividades, formaram associações para defender interesses comuns e melhorar as práticas produtivas.
“O setor produtivo de Rondônia é muito unido.”
Para o presidente da Faperon, a organização fortalece as cadeias, amplia o diálogo com os governos e ajuda a construir soluções para problemas que afetam toda a produção.
Entre as principais pautas levantadas pelo setor estão a recuperação das rodovias, a integração dos modais de transporte, os investimentos nas hidrovias e a redução dos custos logísticos.
Logística continua como um dos maiores gargalos
Hélio Dias apontou a logística como um dos principais desafios para o crescimento do agronegócio brasileiro e rondoniense.
“A logística sempre foi e continuará sendo um dos grandes gargalos do Brasil.”
O país concentrou grande parte de seus investimentos históricos no transporte rodoviário. Enquanto isso, os modais ferroviário e hidroviário, que podem reduzir os custos de longas distâncias, receberam menos atenção.
No caso de Rondônia, a integração entre rodovias e hidrovias é considerada indispensável para transportar grãos, carne, fertilizantes e outros produtos.
“Precisamos de condições adequadas de trafegabilidade tanto no modal rodoviário quanto no hidroviário. Eles precisam estar integrados.”
BR-319 e conexão com Manaus
Entre as pautas citadas durante o RuralCast está a BR-319, ligação rodoviária entre Porto Velho e Manaus.
Para Hélio, o funcionamento adequado da rodovia, combinado com o transporte pelo rio Madeira, criaria novas opções para passageiros e cargas entre Rondônia e o Amazonas.
A integração permitiria complementar os modais, reduzir a dependência de uma única rota e ampliar o acesso aos mercados da Região Norte.
As discussões sobre a rodovia também estão relacionadas ao fortalecimento de Porto Velho como centro de transporte e distribuição.
Hidrovia do Madeira precisa de investimentos
O rio Madeira é utilizado há anos para o transporte de cargas, especialmente grãos e insumos. Entretanto, Hélio afirmou que ainda faltam investimentos para que o trecho opere como uma hidrovia plenamente estruturada.
“Hoje temos um rio navegável, mas a Hidrovia do Madeira ainda não existe de fato com toda a estrutura necessária.”
Entre as intervenções citadas estão a sinalização, a retirada de obstáculos, o tratamento de pontos críticos, a dragagem de canais e a manutenção da profundidade necessária durante a estiagem.
No período de seca, bancos de areia e trechos de menor profundidade podem limitar a quantidade de carga transportada pelas barcaças.
“Precisamos saber onde serão feitos os canais, quais pontos receberão intervenções e como será garantido o calado no período de seca.”
Concessão precisa ter regras transparentes
A possível concessão da Hidrovia do Madeira para a iniciativa privada também recebeu destaque. Hélio afirmou ser favorável ao modelo, desde que as regras sejam transparentes e discutidas com produtores, transportadores e empresas que utilizam o rio.
“Sou favorável à concessão, mas com um regramento claro, para que todos saibam quais investimentos serão realizados.”
O prazo mencionado para a concessão é de 30 anos. Por isso, o setor produtivo deseja conhecer antecipadamente os investimentos previstos e as condições que serão aplicadas ao longo de todo o contrato.
Hélio lembrou que os custos cobrados dos transportadores podem ser posteriormente repassados ao produtor. Por isso, tarifas, reajustes e obrigações precisam ser debatidos antes da conclusão do processo.
“O custo do transporte acaba voltando para o produtor. Precisamos conhecer as regras desde o início.”
Empresas regionais devem participar da discussão
Na avaliação de Hélio Dias, as empresas que já conhecem a navegação amazônica e utilizam o rio Madeira devem participar ativamente das discussões e do processo de concessão.
Ele mencionou transportadoras, grupos portuários e empresas compradoras de grãos que já operam no estado e possuem conhecimento sobre as características da região.
“Queremos que participem as empresas que estão na Amazônia, trabalham aqui e conhecem a realidade da navegação.”
O objetivo é evitar que decisões sejam tomadas sem considerar os usuários locais, os custos enfrentados pelos produtores e as condições específicas dos rios amazônicos.
Hidrovia do Guaporé pode criar novo corredor
Outro projeto debatido foi o aproveitamento do rio Guaporé como corredor de transporte. A proposta prevê estudos para conectar áreas produtivas do Sul de Rondônia, passando por municípios como Pimenteiras, Cerejeiras, Colorado do Oeste, Costa Marques e Guajará-Mirim.
A rota também poderia beneficiar o noroeste de Mato Grosso e reduzir parte da pressão sobre a BR-364.
“Esse corredor pode ajudar a escoar a produção e reduzir o alto custo enfrentado atualmente nas rodovias.”
Segundo Hélio, prefeitos e representantes das regiões envolvidas deverão participar das discussões preliminares sobre a viabilidade do projeto.
O aproveitamento do Guaporé ainda precisa superar desafios técnicos e estruturais, incluindo a conexão entre os trechos navegáveis e os obstáculos existentes na região das usinas hidrelétricas.
Barcaças substituem centenas de carretas
O transporte hidroviário possui capacidade significativamente maior do que o rodoviário. Durante visitas aos portos, Hélio observou estruturas capazes de movimentar o equivalente a centenas de carretas.
“Uma composição de barcaças pode transportar uma carga que exigiria centenas de bitrens nas rodovias.”
Além de reduzir custos, o uso das hidrovias pode diminuir o fluxo de caminhões, o desgaste das estradas, o consumo de combustível e o tempo de deslocamento.
Para que isso ocorra, contudo, as cargas precisam chegar aos portos por estradas em boas condições. Por isso, os dois modais devem funcionar de maneira integrada.
Carne de Rondônia pode ganhar nova rota
A logística da carne bovina foi outro tema abordado no podcast. Segundo Hélio, Rondônia encerrou 2025 com aproximadamente 3,6 milhões de animais abatidos.
Atualmente, parte importante da carne produzida no estado segue em caminhões frigoríficos para portos localizados em São Paulo e no Paraná.
A expectativa é que novos terminais no rio Madeira permitam inverter essa rota. A carne processada nos frigoríficos poderá seguir para Porto Velho em contêineres refrigerados e, depois, ser transportada por barcaças até Manaus, de onde será embarcada para outros países.
“Vamos inverter a logística da carne bovina, trazendo a produção para Porto Velho e seguindo pelo rio Madeira.”
Os terminais precisarão contar com estrutura para receber, armazenar e transportar contêineres refrigerados sem interromper a cadeia de frio.
Rota pode reduzir viagem até a Ásia
Segundo Hélio, o escoamento pela Região Norte pode reduzir em aproximadamente 15 dias o tempo de transporte da carne destinada aos mercados asiáticos, na comparação com rotas que seguem primeiro para os portos do Sudeste.
“Se a carga for destinada à Ásia, podemos ter um ganho de até 15 dias. Tempo também é dinheiro.”
A redução do percurso pode melhorar a competitividade dos produtos rondonienses, diminuir despesas logísticas e ampliar a participação do estado no comércio internacional.
Porto Velho pode liderar corredor do Arco Norte
A localização geográfica de Porto Velho foi apontada como um dos maiores diferenciais de Rondônia. A capital está às margens do rio Madeira, possui acesso rodoviário e reúne condições para ampliar as conexões com ferrovias, aeroportos e outros corredores.
“Porto Velho está em uma localização estratégica e pode se tornar um dos maiores corredores logísticos do Arco Norte.”
Na avaliação de Hélio, a cidade está posicionada no coração da América do Sul e pode atrair grandes investimentos em portos, armazenamento, fertilizantes, processamento de alimentos e transporte.
A BR-319 também pode ampliar essa integração quando estiver em condições adequadas de trafegabilidade.
Produção pode avançar sobre áreas degradadas
Hélio Dias destacou que Rondônia cultiva aproximadamente 720 mil hectares de soja, mas possui capacidade para ultrapassar dois milhões de hectares.
Esse crescimento poderia ocorrer por meio da recuperação e utilização de áreas de pastagens degradadas, sem necessidade de abertura de novas áreas de floresta.
“Temos cerca de dois milhões de hectares de áreas abertas e pastagens degradadas que podem ser recuperadas com soja e milho sem derrubar uma árvore.”
A conversão produtiva pode recuperar o solo, ampliar a oferta de grãos e favorecer sistemas de integração entre lavoura e pecuária.
Porto Velho também possui extensas áreas planas que podem se tornar produtivas com correção, adubação, tecnologia e infraestrutura.
Investimentos podem superar R$ 2 bilhões
O presidente do Sistema Faperon/Senar afirmou que acompanha projetos de grandes empresas interessadas em investir na região portuária de Porto Velho.
Segundo ele, as propostas podem superar R$ 2 bilhões, incluindo terminais para grãos, cargas secas e carne, além de uma possível indústria de fertilizantes.
“Existem grandes empreendimentos com projetos prontos para investir na região portuária de Porto Velho.”
A instalação dessas empresas ainda depende de regularização territorial, atualização do Plano Diretor e emissão das licenças necessárias.
Hélio destacou que a definição de uma zona portuária específica pode proporcionar maior segurança jurídica aos investidores.
“Os empreendedores têm recursos e querem investir, mas precisam da regularização das áreas para obter as licenças.”
Verticalização é fundamental para o pequeno produtor
No encerramento da entrevista, Hélio Dias destacou uma pauta voltada diretamente à agricultura familiar: a verticalização da produção.
O objetivo é ajudar pequenos produtores a transformar matérias-primas em produtos com maior valor comercial, como mel embalado, café processado e alimentos de origem vegetal ou animal.
“Rondônia chegou a um momento em que não basta apenas produzir. O produtor precisa agregar valor à produção.”
A agroindustrialização pode ampliar a renda, gerar empregos, reduzir perdas e criar marcas próprias nos municípios.
Programa atenderá pequenas agroindústrias
Hélio anunciou que o Sistema Faperon/Senar planeja lançar, a partir de janeiro, um programa de assistência técnica destinado às pequenas agroindústrias.
A iniciativa deverá contratar entre 10 e 15 técnicos para acompanhar empreendimentos em fase inicial. Cada profissional poderá atender aproximadamente 15 unidades.
A estimativa é alcançar perto de 200 pequenas agroindústrias em diferentes municípios de Rondônia.
“Com a contratação de 10 a 15 técnicos, poderemos atender quase 200 agroindústrias.”
O atendimento deverá abranger atividades de origem animal e vegetal. Os técnicos ajudarão na organização dos processos legais, na estruturação do modelo de negócio e na adequação das instalações.
Assistência e responsabilidade técnica
Segundo Hélio, o Senar deverá custear integralmente a assistência técnica oferecida pelo programa e subsidiar aproximadamente 90% a 95% do custo relacionado à responsabilidade técnica.
“Vamos oferecer o empurrão inicial para que o produtor organize o processo legal e consiga implementar sua agroindústria.”
O acompanhamento deverá se concentrar especialmente nos primeiros anos, período em que o empreendedor enfrenta dificuldades para adequar o produto, cumprir exigências sanitárias, estruturar a gestão e acessar o mercado.
A proposta é criar condições para que pequenas unidades se consolidem e possam, no futuro, tornar-se médias ou grandes agroindústrias.
Parcerias poderão ampliar alcance
Hélio defendeu a participação do Governo de Rondônia, do Sebrae e de outras instituições no fortalecimento das pequenas agroindústrias.
“A pequena agroindústria de hoje pode se transformar na média ou na grande agroindústria de amanhã.”
A atuação conjunta poderá ampliar o número de produtores atendidos, facilitar a regularização e criar canais para comercialização dos produtos.
Para o presidente, a industrialização precisa acontecer dentro do estado para que uma parcela maior da riqueza permaneça nos municípios.
RuralCast amplia o debate sobre o futuro do campo
A entrevista mostrou que o desenvolvimento do agronegócio rondoniense depende de diferentes fatores conectados. A produção precisa de assistência técnica, estradas, hidrovias, portos, regras claras, investimentos privados e mecanismos para agregar valor.
Ao receber Hélio Dias durante a 2ª AGROTEC, o RuralCast levou ao público informações sobre as principais pautas defendidas pelo Sistema Faperon/Senar e sobre as transformações que podem colocar Porto Velho entre os principais corredores logísticos do país.
“Este é o momento de Rondônia não apenas produzir, mas transformar seus produtos, agregar valor e gerar mais renda.”
Assista à entrevista completa no canal Olá Rondônia:
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