O desejo de otimizar o uso do leite produzido na propriedade familiar impulsionou a criação de um empreendimento milionário. Há 12 anos, Rosi Barbosa e Raphael Figueiredo fundaram a Rocca, uma fabricante de doce de leite sediada em Pouso Alegre, Minas Gerais. Atualmente, a empresa alcança um faturamento anual de R$ 24 milhões, com uma produção diária de cerca de 18 mil potes, distribuição nacional e planos para iniciar exportações.
A trajetória da Rocca antecede a fundação da fábrica. Rosi, que representa a quarta geração de uma família dedicada à produção leiteira, cresceu na Fazenda Zé Pequeno, ao lado de seus pais, José e Lazara.
Ela destaca ser a primeira geração da família a transformar o leite em doce de leite, uma evolução da tradição familiar.
Na época, a fazenda enfrentava um cenário comum a muitas propriedades leiteiras brasileiras. Os seis filhos do casal haviam deixado o campo em busca de oportunidades urbanas, e José permanecia praticamente sozinho na atividade, com uma produção diária de aproximadamente 200 litros de leite.
Rosi recorda que seus pais estavam sozinhos na fazenda, e a produção de leite era bastante reduzida.
Um Sonho Transformado em Realidade
Formada em Direito, Rosi nunca se identificou com a carreira jurídica. Durante um evento de empreendedorismo, ela compartilhou com o marido o antigo desejo de produzir doce de leite utilizando o leite da fazenda.
A inspiração vinha de sua mãe, Lazara, que preparava o doce artesanalmente em tachos de cobre. Raphael, natural de Belém (PA), engenheiro de Telecomunicações com experiência em multinacionais em São Paulo, não tinha ligação com o meio rural, mas viu potencial no projeto.
Ele expressou seu forte desejo de empreender, afirmando que a ideia se mostrou viável após ser detalhada no papel. Raphael, que hoje também é produtor de leite, reconhece que há 13 anos não possuía conhecimento algum sobre o setor rural.
O casal tinha como objetivo ir além da simples fabricação de doces. A estratégia era verticalizar a produção, transformando o leite, uma commodity de margens apertadas, em um produto de maior valor agregado. Raphael explicou que a intenção era verticalizar a produção da fazenda e construir uma marca robusta.
Segundo Rosi, a empresa nasceu com a proposta clara de produzir um doce de leite feito apenas com leite e açúcar, sem espessantes ou conservantes. Ela enfatiza que o propósito sempre foi oferecer um produto de "rótulo limpo", com o slogan “Leite. Açúcar. Amor. Só.”.
A decisão surgiu da percepção de que muitos doces de leite brasileiros haviam perdido as características tradicionais da receita mineira.
Rosi observou que o doce de leite argentino era muito valorizado, enquanto o brasileiro frequentemente continha espessantes, conservantes e outros aditivos. O objetivo era resgatar o prazer de consumir um doce de leite puro.
Embora não tivessem planejado atuar no segmento premium, a abordagem resultou no posicionamento da Rocca entre as marcas de maior valor agregado. O produto ganhou uma identidade distinta, com um processo de fabricação mais lento, ingredientes naturais e uma marca concebida para reconhecimento internacional desde o início.
Da Produção Artesanal ao Faturamento Milionário
No primeiro ano de operação, a Rocca faturou cerca de R$ 200 mil, com a produção de aproximadamente 18 mil potes de doce de leite. Atualmente, essa mesma quantidade é produzida em apenas um dia, conforme Rosi.
A empresa consolidou sua marca em todo o território nacional, registrando um faturamento anual de R$ 24 milhões.
Com o crescimento da indústria, a produção leiteira também precisou se adaptar. Há cerca de cinco anos, Romero Barbosa, irmão de Rosi e agrônomo, retornou à fazenda e se tornou sócio da operação leiteira.
A propriedade abandonou o sistema de pastagens e adotou o confinamento em compost barn, investindo em genética, inseminação artificial e transferência de embriões.
A produtividade média por vaca saltou de 12 para 35 litros de leite por dia. Atualmente, a fazenda possui cerca de 83 animais, sendo 39 vacas em lactação, e toda a produção é destinada exclusivamente à Rocca.
Raphael explica que, embora a fazenda e a Rocca sejam negócios separados, 100% do leite produzido na propriedade é vendido para a fábrica, resultando em um melhor desempenho.
Exportação: O Próximo Passo
Com presença em todos os estados brasileiros, a Rocca agora mira a expansão internacional. A empresa está em processo de obtenção do Serviço de Inspeção Federal (SIF), certificação essencial para a exportação de seus produtos.
Raphael informa que a companhia já participa de programas da ApexBrasil focados na internacionalização e está avaliando mercados no Mercosul e em outros países. Ele afirma que a ambição de exportar sempre foi parte da visão da empresa, e agora se concretiza como um projeto.
O Negócio que Reuniu a Família
Para Rosi, um dos maiores legados da Rocca transcende o sucesso empresarial. O negócio transformou a rotina familiar e revitalizou a Fazenda Zé Pequeno.
Quando ela e Raphael decidiram transformar o leite da propriedade em doce de leite, seus pais, José e Lazara, viviam praticamente sozinhos na fazenda. Como em muitas famílias rurais, os seis filhos haviam se mudado para as cidades em busca de oportunidades.
Rosi relata que o retorno trouxe vida à fazenda, onde hoje tudo acontece. Ela e Raphael construíram sua casa na propriedade, criam seus filhos ali, seu irmão voltou para ser sócio, e seus pais convivem diariamente com toda a equipe, considerando a Rocca como uma família.
Ela destaca que os pais não só apoiaram o projeto desde o início, mas foram cruciais para sua existência.
Rosi afirma que a produção de leite, e consequentemente a Rocca, não existiria sem seus pais, que sempre os apoiaram e continuam sendo uma inspiração diária.
Rosi também faz questão de enaltecer o papel do marido na construção da empresa. Segundo ela, o sonho de produzir doce de leite existia antes do negócio, mas foi Raphael quem identificou o potencial para transformá-lo em realidade.
Ela expressa que Raphael foi fundamental para transformar um sonho em um projeto concreto. No início, eram apenas os dois, sem funcionários ou estrutura, e a parceria foi essencial para sustentar o projeto nos momentos difíceis, permitindo a construção da Rocca.
Mesmo com o crescimento da empresa e a chegada de novos sócios e colaboradores, Rosi ressalta que o espírito de parceria permanece inalterado.
Ela se sente honrada em compartilhar o projeto com alguém que acreditou nele desde o primeiro dia, mesmo com a presença de uma equipe competente.
Raphael, por sua vez, acredita que o maior patrimônio construído pela família não é apenas a marca, mas a oportunidade de transmitir esse legado aos filhos.
Ele sempre acreditou no modelo de negócio familiar, onde todos trabalham juntos. Ele vê poder na união familiar para o crescimento conjunto.
Atualmente, o casal já observa a quinta geração na fazenda, com o filho mais velho tendo apenas dois anos. Raphael espera que eles deem continuidade à história iniciada pelos avós e fortalecida pelos pais.
Ele expressa o desejo de que os filhos se envolvam com a fazenda e os negócios, valorizando a força da família unida. Para ele, construir a vida na fazenda onde Rosi nasceu, convivendo com os sogros, Romero, Rosi e os filhos, é algo muito especial.
Mais do que construir uma marca nacionalmente reconhecida, o casal se orgulha de ter criado um negócio que mantém viva a tradição leiteira da família e abre caminho para que as futuras gerações continuem essa história na Fazenda Zé Pequeno.